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Evento na FEUSP debate sobre quadrinhos negros brasileiros e uso para a educação

  Natalia Sierpinski    sexta-feira, 15 de junho de 2018

Na semana passada (dia 06) a Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP) sediou um encontro intitulado “Quadrinhos Negros brasileiros e suas possibilidades educacionais” promovido pelo Grupo de Pesquisa sobre educação, relações étnico-raciais, gênero e religião da FEUSP, que contou com os quadrinistas Marcelo D’Salete, Robson Moura, Hugo Canuto, Pedro Minho, Rafael Calça, Maurício Pestana e Bruna Tamires. A mesa foi coordenada por Caio Ferraro, mestrando da FEUSP e professor de história da rede pública.

A primeira fala da mesa foi de Marcelo D’Salete, Mestre em História da Arte pela USP, ilustrador, autor de histórias em quadrinhos e educador, atualmente professor de artes visuais da Escola de Aplicação da USP e está concorrendo ao prêmio Eisner, premiação americana de prestígio na área, pelo quadrinho “Cumbe” (2014) que traz narrativas de resistência à escravidão no período colonial brasileiro. Sua história em quadrinhos mais recente é “Angola Janga” (2017)  que traz a história do Quilombo dos Palmares com complexidade e apresenta um novo ponto de vista sobre esses acontecimentos. D’Salete falou da importância de termos o racismo como tema presente nas histórias em quadrinhos, e também apontou a relevância de trazer histórias que vão além do que estamos acostumados a ouvir no nosso cotidiano.

Além de termos uma grande ausência de personagens negros, quando temos tais personagens, eles são na maioria das vezes representados como secundários ou terciários na trama e de maneira estereotipada e relacionada a subalternidade. Como uma alternativa a essas representações, D’Salete apontou a necessidade de trazer produções com personagens negros mais humanizados e com mais profundidade e protagonismo, com vista de construir novas representações que irão dar base para a superação dos estereótipos vigentes atualmente.

Rafael Calça é roteirista de histórias em quadrinhos, animações e ilustrador, seu quadrinho mais recente é “Pele” (2018), ele também falou sobre representação e apontou a necessidade de fugir da bolha da representação negativa em que o personagem negro é colocado diversas vezes, sendo na favela, na pobreza, no sofrimento, no tráfico, de modo a apresentar que existem outras representações possíveis e quão construtivo se deparar com uma representação positiva para com esses personagens.

Calça também comentou sobre o uso das histórias em quadrinhos na educação. Após o lançamento do seu quadrinho “Pele” do selo MSP, que traz o Jeremias da Turma da Mônica como protagonista e apresenta o tema do racismo na infância, vários professores o abordaram para falar que acharam este quadrinho uma ótima ferramenta para debater racismo na sala de aula. O artista complementou falando que espera que mais histórias assim cheguem nas escolas para debater essa temática.

Robson Moura, ilustrador, pintor, e desenhista, atualmente é professor da rede pública, comentou como é difícil trabalhar o tema do racismo na sala de aula. De assembleias de alunos até rodas de conversa, ele busca trazer o debate para o dia a dia escolar em que atua, já tendo presenciado falas de alunos dizendo situações de racismo que sofreram e mediando essas situações. O educador e artista acredita que as histórias em quadrinhos são uma ferramenta muito forte para a educação. Em seu quadrinho intitulado “Black Friday” (2017) o autor trouxe várias histórias curtas que tem o racismo como tema central, cada página foi publicada numa sexta-feira, como uma webcomics, com a proposta de trazer discussões e reflexões sobre o racismo e preconceito cotidiano, posteriormente com financiamento coletivo pelo Catarse, o quadrinho compilando todas essas histórias foi lançado.

Seguindo essa busca por produzir quadrinhos sobre o racismo cotidiano, Bruna Tamires falou sobre seu trabalho com Fanzines, ela iniciou suas zines na época da produção do seu trabalho de conclusão de curso da graduação em Gestão de Políticas Públicas na USP, seu TCC foi sobre a formação dos estudantes desse campus da USP em relação a temática racial e a reflexão acerca do racismo, atualmente ela trabalha na Secretaria Municipal de Cultura. Suas zines tratam sobre o racismo em diversas perspectivas, desde o racismo na universidade até manuais de “Como reconhecer o sistema”, visando assim trazer fanzines informativas e explicativas sobre o tema, a quadrinista produz também zines que não seguem esse modelo de manual, por exemplo ao tratar da sexualidade feminina. Alguns de seus trabalhos podem ser conferidos na página Malokêarô e a artista também atua em um Clube de Leitura chamado Clube Negrita.

 Continuando com quadrinhos que buscam desconstruir narrativas racistas cotidianas e já muito naturalizadas e apresentar novos pontos de vista, Hugo Canuto e Pedro Minho falaram do processo de pesquisa e produção de seu quadrinho “Conto dos Orixás” (2018), que busca desconstruir preconceitos trazendo a mitologia dos orixás. Canuto foi até a Bahia pesquisar, vivenciar e conversar com pessoas ligadas a essa religião para compor seu quadrinho, ele comentou sobre como as religiões afro-brasileiras são atacadas e subjugadas devido ao preconceito e ao racismo, apontando a importância de termos outra forma de representação para trazer essa mitologia e os elementos da cultura Yorubá de forma complexa e elaborada. Apesar do quadrinho ainda não ter sido lançado, pelas imagens de divulgação Canuto já teve devolutivas positivas de pessoas que se sentiram representadas pelos Orixás do quadrinho e viram nele um pouco de sua própria cultura. Hugo Canuto é ilustrador e quadrinista e já vinha trabalhando com a temática da mitologia nos quadrinhos em “Canção de Mayrube” (2015) que possui uma narrativa inspirada no universo mítico dos povos da América.

Pedro Minho trabalha com animação e coloração de histórias em quadrinhos, contou que também pesquisou muito sobre o tema para a produção do “Conto dos Orixás” e disse que quanto mais pesquisava mais material encontrava, o processo foi muito essencial para poder pensar na coloração desse quadrinho, visando um produto final que estivesse alinhado com essa narrativa.

Mauricio Pestana é escritor, publicitário, roteirista e cartunista e tem suas obras reconhecidas tanto no Brasil quanto no exterior, ele falou sobre sua trajetória, desde quando começou a produzir na época da ditadura militar, em que seus cartuns tinham refletidos o momento político da época e o quanto suas produções sempre tiveram o racismo abordado em suas páginas. Uma fala marcante foi quando Pestana narrou que quando começou a produzir histórias em quadrinhos ele era um dos únicos quadrinistas negros do Brasil e fez a comparação de tal momento com a mesa em que se encontrava no evento, em que estava rodeado de diversos outros quadrinistas negros e a grande importância que isso carrega.

Assim, dentro de um debate muito qualificado com artistas e educadores de diversas gerações e com diferentes produções e repertórios, foi possível aprender mais sobre representatividade, quadrinhos negros – se inspirar e se basear em suas histórias para desconstruir preconceitos e repensar narrativas.

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Natalia Sierpinski

Natalia Sierpinski

Educomunicadora e pesquisadora de quadrinhos, gênero e educação. Sou potterhead, não tenho treta entre Marvel e DC, gosto e acompanho ambas, adoro Star Wars, vídeo game, jogos de tabuleiro e cinema.

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