Ciência

Jéssica Wade, a mulher que escreve biografias para divulgar as mulheres na ciência

  Mayra Benedetti    domingo, 05 de agosto de 2018

Já estamos acostumadas a ouvir que “precisamos de mais mulheres na ciência, mas infelizmente sabemos que a realidade é totalmente diferente. É um espaço predominantemente masculino, onde estamos lutanto por uma representação feminina mais forte. Porém acredito que nós mulheres estamos no caminho certo, nossa luta não têm sido em vão, e se olharmos para trás, podemos enxergar com muita clareza tudo que foi por nós conquistado.

E como inspiração para nossa luta, temos a física Jessica Wade, que desde cedo frenquentou um colégio apenas para meninas, e hoje é colaboradora do Instituto de Física Britânico, e também dá palestras em colégios. Jessica escreve diariamente páginas de Wikipédia sobre cientistas do sexo feminino, e essa estratégia irá aumentar a representatividade das mulheres na ciência.

Jéssica Wade, a mulher que escreve biografias para divulgar as mulheres na ciênciaJessica Wade explica como funciona um material orgânico semicondutor. IMPERIAL COLLEGE LONDON

“Quando comecei a fazer minha tese de doutorado, era a única garota no grupo de pesquisa. Minha melhor amiga se pós-graduou e para mim de repente ficou muito difícil continuar na universidade que eu amava tanto sem uma rede de apoio. Foi então que percebi que isso deve acontecer com todas as mulheres em todos os departamentos, quando não têm essa melhor amiga”, recorda a jovem pesquisadora.

Wade cursou graduação e mestrado no Imperial College de Londres, onde agora trabalha no estudo da eletrônica dos polímeros. Criar páginas na Wikipédia é um movimento global, e sua inspiração foi a estudante de medicina norte-americana Emily Temple-Wood, que começou a editar logo cedo, aos doze anos de idade.

Mas Emily acabou sofrendo ataques machistas e misóginos, por e-mail e rede sociais, e em decorrência disso, resolveu focar em escrever uma página da Wikipédia sobre uma mulher pesquisadora para cada mensagem ofensiva que recebia. Pouco tempo depois, Emily estava à frente de um grupo de colaboradores, e conseguiu melhorar a qualidade dos artigos, até ficarem acima da média da enciclopédia. Esse processo recebeu o nome de Efeito Keilana, em homenagem ao seu nome de usuária.

Emily Temple-Wood a mulher que escreve biografias para divulgar as mulheres na ciência

Jessica seguiu seu legado, escrevendo semanalmente sete novas biografias, que já somam mais de cem. Para conseguir mais conteúdo para suas matérias, pesquisa nos arquivos das instituições científicas, passa um bom tempo no twitter e vai á conferências.

“Essa não é só uma realidade triste e discriminatória; é que, além disso, as poucas páginas que existem sobre cientistas costumam se limitar a enumerar os prêmios que elas receberam, mencionar o fato de serem mulheres ou falar de seus maridos. Há pouquíssima informação sobre suas pesquisas”, conta , irritada. “E se você for à página de uma disciplina científica onde sabe que uma mulher fez uma contribuição importante, é muito raro que mencionem o nome dela ou sua contribuição. Fico furiosíssima.” Além disso, Wade observa que a Wikipédia é o principal recurso educativo em muitos países com escassa distribuição de livros didáticos. “Não quero que essa gente tenha uma visão tão distorcida”, acrescenta.

Para criar uma biografia nova, é muito importante demonstrar a notabilidade da pessoa, que ele “fez por merecer” ter uma página na Wikipédia, e isso costuma ser muito difícil. Por exemplo, Wade diz que ela não pode fazer uma página para uma amiga, ou pessoa muito próxima dela, só pra “fazer graça”. É um trabalho real, muito sério e que exige muito comprometimento e profissionalismo.

 “Às vezes você cria uma página sobre uma mulher que contribui mais para o diálogo sobre a ciência do que diretamente para a pesquisa, e as pessoas rapidamente começam a apontar que não há notabilidade ou que não ela tem fez nenhuma contribuição. É horrível ler isso”, diz. “Seria horrível ler isso sobre você.”

Wade procura esperar a revisão de um editor experiente da enciclopédia antes de compartilhar suas páginas novas.

“Mas necessitamos de mais diversidade entre os editores; também aí há uma distorção, porque quase todos são homens”, lamenta. Além disso, a pesquisadora acredita que há outro problema: “Percebi de forma empírica, ainda não tenho dados estatísticos, mas parece que esses comentários aparecem mais rapidamente quando a mulher não é branca. Isso realmente me parece terrível”.

“Em espanhol acredito que 18% das biografias sejam de mulheres. Está um pouco melhor, mas, claro, é uma Wikipédia muito menor [que a inglesa]”. A vantagem, observa, é que há tão poucos editores em outros idiomas que é muito fácil começar e se sentir acolhido pela nova comunidade que está aparecendo. Para todos os que estiverem cogitando aderir, Wade tem um conselho: “Uma forma muito fácil de começar a editar a Wikipédia [em outro idioma] é traduzir artigos da versão inglesa que ainda não existem. Isso seria genial.”

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Mayra Benedetti

Mayra Benedetti

Apaixonada pelo mundo dos livros e quadrinhos. Colecionadora de funkos e gatos. DCnauta assumida. Tenho a Mulher-Maravilha como inspiração.

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