Cinema

Bao: Primeiro curta da Pixar dirigido por uma mulher, é indicado ao Oscar

  Caroline Zani    terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Comecem as apostas! A lista de indicados ao Oscar foi divulgada em janeiro. Na categoria “Melhor Curta de Animação” encontra-se Bao, primeiro curta da Pixar dirigido por uma mulher. Apesar da primeira indicação, a chinesa Domee Shi já trabalhou em outros grandes projetos como Divertida Mente (2015) e O Bom Dinossauro (2015).

Bao foi exibido antes de Os Incríveis 2, que estreou nos cinemas brasileiros em 28 de junho. Os curtas, além de tradicionais no universo Disney, funcionam como prelúdio, dando o tom da experiência cinematográfica, se tornando tão importantes quanto a própria animação.

Também conhecido como o pãozinho chinês do Kung Fu Panda, Bao tem profundas relações com sua criadora. Assim como a família chino-canadense do curta, os parentes chineses de Domee imigraram para o Canadá. Inspirada por sua mãe, que passava o final de semana com a família preparando os bolinhos, Domee Shi foi desenvolvendo a animação nas horas vagas, segundo ela, em entrevista para a Capricho:

“Isso foi perfeito em Bao, porque na cultura chinesa, comida e família andam de mãos dadas. Quando você quer dizer pra alguém que gosta dela, você não diz amo você, apenas pergunta – você já comeu? Está tão magrinho…”

O curta mostra como os pais lidam com o crescimento dos filhos. Durante a narrativa, vemos a mãe de um bolinho chinês fofo, se desdobrando para protegê-lo. Os momentos de ternura da infância cedem espaço para a rebeldia da adolescência e o desejo por liberdade.

Nessa hora você pode estar se perguntando: – Mas ele não era um bolinho????

Pois bem, aparentemente, durante a narrativa, o bolinho passa pelas fases normais de uma criança até a idade adulta. Faz compras com a mãe, brinca no parque com outros meninos, se alimenta e até toma banho. A ausência do pai é uma constante, intensificando ainda mais as relações entre mãe e filho.

Os problemas surgem quando Bao se torna um jovem adulto e independente enquanto sua mãe, agora com tempo ocioso, se sente deprimida, abandonada e melancólica…

Características que descrevem a síndrome do ninho vazio, gerada quando os pais, principalmente os que dedicaram suas vidas exclusivamente aos filhos, começam a notá-los enquanto indivíduos autônomos, capazes de fazer as próprias escolhas, desenvolverem novas relações e formarem outro lar. É nesse momento, que a vida de muitos pais se transforma.

SPOILER!

Bao, agora um jovem adulto de barbicha, surge com sua noiva, linda e loira, para se despedir definitivamente de sua mãe. A mãe, em uma atitude passional e desesperadora, se alimenta do próprio filho (afinal, ele é um bolinho). Apenas dessa forma, ela poderia tê-lo para sempre! O medo de perdê-lo, para outras pessoas ou para o mundo, fez com que ela o devorasse (literalmente). Bela metáfora para relacionamentos baseados na dependência do outro, na subordinação, no esquecimento de si.

Além da síndrome do ninho vazio, o comportamento dessa mãe pode ser também relacionado ao Complexo de Wendy. Isso mesmo, estamos falando da personagem criada por J. M. Barrie, a grande responsável pelos sucessos do jovem Peter. Wendy abandona seu lar para viver aventuras ao lado de Peter Pan, na Terra do Nunca. Ao chegar, logo assume a tutela dos garotos perdidos, realizando os afazeres domésticos e assumindo a função de uma mãe cautelosa.

Apesar de não ser reconhecida pelo ‘Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais’, a síndrome de Wendy já é estudada na psicologia desde os anos de 1980. Mais comum em mulheres, o complexo se desenvolve em pessoas que se utilizam de comportamentos considerados “maternais” em diversos tipos de relacionamento. Preocupação excessiva, tendência a assumir responsabilidades, busca por aprovação e por formas de se sentir importante, seja através da realização de tarefas ou no apaziguamento de conflitos, são características comuns nesse complexo.

Há quem diga, que o convívio de pessoas com essa personalidade tem decorrência na Síndrome de Peter Pan ou, nas palavras do Dr. Dan Kiley, a “síndrome do homem que nunca cresce”. Geralmente, enquadram-se pessoas acima dos 30 anos, marcadas por um passado de superproteção, com comportamentos imaturos, narcísicos e dependentes, emocional ou financeiramente.

Voltando ao curta…no final, em um lapso de realidade, Bao surge como humano e reata suas relações com a mãe.  A família agora, reunida na mesa,  prepara o tradicional bolinho chinês. Como tantas outras famílias, na China e fora dela, o tempo de preparo da comida é também o momento para restabelecer a harmonia familiar e a ancestralidade. A devoção à família é uma das maiores virtudes chinesas. O  preparo do bao preserva o carinho familiar e a tradição cultural.

Além de Bao, outros quatro curtas concorrerão ao Oscar, são eles: Animal Behavior, Late Afternoon, One Small Step e Weekends. Com cerca de 20 curtas lançados e mais de 30 anos de existência, essa é a primeira vez que uma mulher dirige um curta-metragem da Pixar.

A escassa participação feminina não se restringe a  indústria de animação. A cada ano, movimentos organizados por artistas e entidades culturais questionam a representatividade feminina em categorias de não atuação. No ano passado, por exemplo, as mulheres preencheram apenas 23% dos indicados ao Oscar. Esses dados tornam a indicação de Bao ainda mais importante e simbólica! Contemporaneamente, nomes como os de Greta Gerwig (Lady Bird,  Frances Ha), Rachel Morrison e Dee Rees (do maravilhoso Mudbound), Vanessa Taylor (A Forma da Água) e tantos outros, tem apresentado o destaque e potencial feminino em categorias técnicas.

Caroline Zani

Caroline Zani

Main D.va e Sonserina. Adora arte, história, gatos e comida indiana. Se diverte com filmes de terror e animações. Um pouco antissocial, mas nada que café não resolva.

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