Quem circula pelos transportes urbanos [vans, ônibus e metrôs] nas grandes cidades, já deve ter percebido o número cada vez maior de indivíduos entretidos com seus laptops, smartphones, ipods, mp3s e-readers e afins… ou não deve ter percebido porque também estava mergulhado na sua própria conexão multimídia. Eu mesma já saio de casa com meus fones no ouvido, meu livro e meu celular e, muitas vezes, sequer vejo se a casa do vizinho está aberta, quem estava na parada de ônibus, muito menos quem embarca durante o meu trajeto.
Se por um lado é ótimo que as tecnologias estejam cada vez mais acessíveis e a tal inclusão digital se torne realidade, por outro, esse mergulho no poço urbano torna a todos “solitários” no meio da multidão. Deixo claro que este não é um texto maledicente à tecnologia, com aquele blá blá blá saudosista e vazio de que ela afasta as pessoas. Seria completamente incompatível com esse espaço, nesse blog com esse nome, com a forma com a qual me conecto. São apenas reflexões sobre a tecnologia e a sua importância na inerente solidão das grandes cidades.
Existe um autor que eu considero um dos clássicos mais relevantes, George Simmel, que aponta os indivíduos nas grandes metrópoles como estrangeiros, acuados com a multidão. Simmel diz que cada vez mais nos tornamos anímicos e intelectualistas, guardando pouco do sentido coletivo e racionalizando nossas condutas de forma sistemática. Todos nós já encerramos uma discussão argumentativa com uma pesquisa rápida pelo Google ou pela Wikipédia, não permitindo assim contestações e abalos à nossa ordem psíquica.
Cada vez mais assumimos posturas que não permitem envolvimento propriamente dito com a cidade, com os micro-sistemas dos quais fazemos parte, porque assumimos, de certa maneira, um caráter blasé, mais centrado no “autoprazer”, mais distante dos ambientes menos intensos e acelerados. O ritmo frenético das cidades nos força a acompanhá-la, ainda que à distância. Nossas ferramentas tecnológicas, essas mesmas supracitadas, nos fornecem a informação, a distração e a companhia que supostamente precisamos.
Hoje em dia, não nos tornamos clientes habituais de um café se ele não nos oferecer um wifi livre, para que possamos mergulhar nas nossas pesquisas e relatórios ao mesmo tempo em que saboreamos um cappuccino ou um espresso. Quando vamos comprar um novo aparelho de celular, ao pesquisar sobre planos, os serviços de dados, tanto ou mais quanto minutos ou sms, se tornam imprescindíveis para a efetivação da compra.
Você neste momento pode dizer “Eu não deixo de viver por causa de tecnologia, por causa do meu computador, isso é papo furado”. Ok, mas pense em quanto das suas horas de lazer você ocupa com algum tipo de eletrônico. Pense também em quantas horas do seu dia de trabalho você está envolvido com algum gráfico ou texto ou projeto, enfim, no seu computador… agora pense em quantas horas do seu dia você passa conversando com seus familiares, com seus colegas e amigos em um bar, sem se preocupar, minimamente, com algum e-mail que você espera. Quanto tempo do seu dia você passa de pernas pro ar, sem produzir nada? Como eu falei anteriormente, esse post não pretende criticar essa forma de viver nas grandes cidades e o uso da tecnologia, mas apontar exemplos e situações que podem ser refletidas, olhar para momentos em que a tecnologia passou a ser protagonista de nossas condutas e perceber se isso não nos afasta mesmo dos prazeres da vida analógica.
Quando você se apaixona por um autor, você costuma fazer analogias com a obra desse e as situações com as quais você se depara. Esse é um esboço inicial de apenas uma das analogias que eu faço com Simmel, assim como faço seguidamente com Foucault, ou Sartre…
Enfim, essa reflexão não se encerra aqui, ao contrário, devo retomá-la em breve. Mas antes, me digam se compartilham de alguma maneira desse olhar ou se discordam totalmente dele. Pode ser uma boa maneira de uma boa discussão se iniciar, transformando em boteco ou café ou universidade, as páginas desse blog.
Beijocas.
Quando o post já estava supostamente pronto, o Fly me mandou esse vídeo, e parece que o sujeito traduz uma parte dessa reflexão:






