É difícil não comparar Black Mirror, devido ao seu sucesso estrondoso, ao novo seriado Philip K. Dick’s Electric Dreams, baseado nas obras de Philip K. Dick, e que trata de temas parecidos. Porém, logo de início, fica claro que os dois são bem diferentes no modo como fazem o espectador pensar sobre o mundo e suas vidas.

Nova série da Amazon, Electric Dreams é uma Black Mirror com dose extra de fantasia

Electric Dreams, já no primeiro episódio, chamado “Real Life“, ou “Vida Real,” mostra sua diferença por ter em seu elenco atores famosos como Anna Paquin e Terrence Howard (até mesmo o veterano Steve Buscemi aparece em episódios seguintes). Assim que reconhecemos os atores, a realidade nua e crua, que é eficazmente captada em Black Mirror, fica um pouco mais fantasiosa.




Este aspecto não é negativo nem positivo, apenas diferente. Os gêneros de ficção científica e fantasia são muito próximos e muitas vezes filmes são classificados como os dois para evitar erro. Porém, são diferentes. O gênero de ficção científica, também chamado de Sci-Fi, sempre lida com o modo que a ciência e a tecnologia afetam a vida dos seres humanos. Somos transportados geralmente a um mundo futuro onde temos que aprender, observando a forma como os personagens lidam com a vida neste cenário.

Ross (Richard Madden) and Honor (Holliday Grainger).Philip K. Dick’s Electric Dreams Episode 106 The

Já a fantasia nos transporta a um mundo de sonhos, ou pesadelos, e que não precisa necessariamente conter tecnologias avançadas. Quando somos transportados a esta nova realidade, a questão não é aprender novas tecnologias em uma vida alternativa, mas sim ingressar em um mundo de aventura e surpresas que nos fazem sentir como heróis (é por isto que Star Wars é considerado mais um filme de fantasia do que de ficção científica – até mesmo a tecnologia avançada no universo se junta com a magia da força).




Enquanto Black Mirror é claramente uma obra de Sci-Fi, Philip K. Dick’s Electric Dreams parece incorporar a fantasia, sendo um misto dos dois gêneros. O episódio “Real Life” mostra, logo no começo, a protagonista Sarah (Anna Paquin) andando por uma cidade já incrivelmente conquistada por carros voadores e arquitetura futurística. Não temos tempo de parar para pensar sobre o local e entender a tecnologia. Só podemos ingressar no mundo alternativo e esperar pela aventura a seguir. Até mesmo a fotografia e estilo de música contribuem para isso, sendo familiar a subgêneros já conhecidos no cinema, como o de detetive.

Mesmo assim, há pontos muito parecidos com vários episódios de Black Mirror. Por exemplo, Sarah é transportada para uma aparente realidade virtual em que se torna uma outra pessoa, com a tentativa de melhorar seu ânimo. Porém, este outro personagem que Sarah se torna, George (Terrence Howard), é tão autêntico que fica difícil saber qual é a realidade. Ou seja, não se sabe qual personagem realmente existe.




Ao invés de nos perguntarmos sobre o efeito desta tecnologia no mundo e como iriamos lidar com isto se estivéssemos no lugar da protagonista, levamos nossa atenção a desvendar os segredos desta aventura passada por Sarah. No final do episódio, considerações sobre a psicologia do ser humano aparecem, dando ao seriado também uma doze de ficção científica. Assim, Philip K. Dick’s Electric Dreams é como assistir Black Mirror com uma dose de fantasia.

*Artigo escrito pelo cineasta Daniel Bydlowski para o jornal Diário de Pernambuco

Carolina Turck

Carolina Turck

Gaúcha apaixonada por São Paulo, Coca Zero e chocolate com menta. Anti-social por opção e nerd por condição.
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