As mulheres da literatura lutaram, e ainda lutam, contra o preconceito e falta de representatividade feminina na vida, e em especial no mercado editorial. Ler seus livros e relembrar suas histórias de vida nos inspiram a continuar lutando por um mundo sem tantas desigualdades.

Nesse dia internacional da mulher, venho levantar a bandeira da leitura de livros de mulheres escritoras como prioridade de leitura. Mas por que devemos priorizar a leitura de livros escritos por mulheres? Vocês já pararam pra pensar em quantos livros escritos por homens você já leu? E em quantos escritos por mulheres? Você já leu mais livros escritos por homens ou por mulheres?





Geralmente a maioria de nós, e me incluo nesse grupo, leu na vida inteira mais livros escritos por homens do que por mulheres. Mas por que fazemos isso? Porque somos incentivadas e recomendadas a ler livros escritos por homens. Pois são eles que conseguem escrever mais, por conta do machismo e preconceito as mulheres sofrem para publicarem seus livros.

Dia Internacional da Mulher: Mulheres inspiradoras da literatura - por que devemos priorizar a leitura de livros escritos por mulheres?

Perplexa com essa desigualdade a escritora e ilustradora britânica Joanna Walsh iniciou em 2014 a campanha de incentivo a leitura de mulheres escritoras. Joanna estava cansada com a contínua desigualdade de gênero nos hábitos de leitura, especialmente de mulheres. Walsh também percebeu que era uma vítima desse próprio sistema, pois tinha lido muito mais escritores homens do que escritoras mulheres. Diante desse fato resolveu tentar reverter essa situação, começou a dedicar-se a leitura, por um ano, de somente mulheres. Logo a hashtag #readwomen ou #leiamulheres em português, começou a tomar força.

Sou nerd old school, meu primeiro amor foi a literatura, por isso para mim ler é muito libertador. No início desse ano resolvi aderir a esse movimento e espero poder inspirar o empoderamento feminino no mercado editorial.

Nesse dia, segue a minha humilde reverência a mulheres que me inspiram, tanto com seus livros, como suas histórias de vida. Elas me inspiram a continuar acreditando em mim e em outras mulheres.

Pelo tamanho do post e pela riqueza de vida dessas mulheres maravilhosas eu poderia ficar até amanhã escrevendo, e um post gigante não daria certo, então escolhi apenas seis que representam para mim, muito poder feminino.

Mary Shelley

Mary Shelley foi uma escritora britânica mãe dos livros de ficção científica e de terror. Mas sua vida, como a de seus personagens não foi nada fácil, por isso ela é tão inspiradora.

Shelley teve uma vida trágica, perdeu a mãe feminista aos 10. Teve uma madrasta que não gostava dela e que por conta disso não lhe deu toda a educação formal adequada. Shelley foi uma autodidata que estudou lendo os livros da biblioteca do pai, filósofo. Casou-se ainda adolescente com o poeta Percy Shelley, aluno de seu pai. Teve vários filhos, mas muitos morreram crianças. Seu casamento não foi feliz, Percy a traiu várias vezes e morreu afogado jovem.




Em 1818, Mary Shelley escreveu sua obra prima, fruto de um desafio de um dia de chuva e que Lord Byron e outros autores, todos homens e Shelley a única mulher foram desafiados a escrever um conto de terror para passarem a tempestade. O conto de Shelley foi tão superior que todos a incentivaram a torna-lo um livro. E eis que surge o livro de horror considerado a primeira ficção cientifica da história, Frankenstein. Frankenstein é um livro que traz fortes críticas aos avanços, a moralidade e a responsabilidade da ciência. Frankenstein foi e continua sendo um grande sucesso. Teve muitas adaptações para a TV e cinema, mas o livro tem uma tristeza e uma beleza impressionantes. Celebre os 200 anos do lançamento dessa obra com a sua leitura, será uma viagem fantástica.

Jane Austen

Jane Austen foi uma escritora britânica de novelas que falam do amor e fazem críticas ao casamento por interesse. Assim como em seus livros Jane viveu na zona rural. Sétima filha de um reverendo anglicano. Iniciou uma educação formal, mas foi obrigada a parar os estudos formais por dificuldades financeiras do pai. Após a morte dele, sofreu com a falta de direito a herança, passou a viver de casa em casa, especialmente de parentes.  Somente teve uma vida mais tranquila quando um de seus irmãos a acolheu.

Escreveu seu primeiro livro aos 17, mas somente com 30 anos publicous duas de suas obras mais famosas, “Orgulho e Preconceito” e “Razão e Sensibilidade”, só que com o pseudônimo de “Uma senhora”.  Em 1816 publicou outra de suas obras mais famosas “Emma”. Jane morreu aos 41 anos da doença de Addison. Austen não se tornou famosa em sua época, mas no século 20 alcançou grande popularidade. Seus livros já foram adaptados para a TV e cinema, com grande sucesso. Jane Austen pode ser considerada uma autora de aspirações feministas, ela faz várias críticas ao casamento, como mera ascensão social, especialmente em “Orgulho e Preconceito”. Mas cabem ressalvas, suas heroínas formalmente se casam, claro que por amor, algo que na sua vida pessoal ela mesma não fez. Meus livros favoritos dela são “Orgulho e Preconceito”, claro Mr. Darcy forever, e “Persuasão”.

Virginia Woolf

A inglesa Virginia Woolf teve uma vida conturbada. Tudo começa com a morte de sua mãe quando ela tinha apenas treze anos. Alguns anos depois seu pai também morreu, ela passou por algumas dificuldade, mas casou-se e teve um caso breve com uma de suas amigas.

Todas essas conturbações de sua mente, ela trouxe para suas obras. Foi uma das precursoras do modernismo e do uso de fluxo de consciência e suas obras. Mas o que diferencia Woolf de outros autores é o seu foco na feminilidade e na vida privada das mulheres. Woolf é uma das percussoras do feminismo na literatura, em um tempo em que as mulheres não tinham muitos direitos, ela sempre tentou colocar as mulheres em posição de destaque. Tanto que já falava de diferença salarial entre homens e mulheres. Em um de seus ensaios o “Um quarto que seja seu” ela já falava que sem a liberdade financeira, mulheres não possuem total liberdade criativa e intelectual.





Woolf sofreu a vida inteira com internações psiquiátricas, talvez tenha sida uma mulher incompreendida em seu tempo, por isso tentou se matar tantas vezes e finalmente conseguiu. Ao ler Mrs. Dalloway, eu percebi o quanto ela critica às imposições e pressões da sociedade. Ela também faz duras críticas aos tratamentos psiquiátricos e suas sequelas. O fluxo de consciência em seus livros é algo intenso, por isso ela é precisa ser tão ouvida.

Clarice Lispector

Clarice Lispector, minha escritora preferida, nasceu na Ucrânia, mas era brasileira de coração. Clarice virou moda nos memes da internet, mas Clarice é muito mais do que isso, é uma antiprincesa e uma antiescritora fundamental da literatura brasileira.

Lispector tinha tudo para ser ter uma vida de princesa, casou-se com um diplomata que viajava um mundo e vivia em meio a cerimônias muito sofisticadas, mas Clarice não gostava nada disso, seu prazer era escrever. Isso demonstra seu empoderamento em não se deixar ser mero objeto ela queria ser valorizada por suas ideias. Mas por que ela pode ser considerada uma antiescritora?





Na sua época os escritores costumavam levar uma vida muito reclusa e de silêncio. Clarice ao contrário, gostava de trabalhar e de cuidar dos filhos também. Tanto que era costume vê-la sempre com a máquina no colo enquanto seus filhos brincavam a seu redor. A literatura de Clarice foi vanguardista em sua época onde o realismo imperava. Lispector escreveu uma narrativa sofisticada de fluxo de consciência, que foi comparado a Virginia Woolf, que ela disse nunca ter lido antes de seus livros.

Tanto na vida como em suas obras Clarice tratou de temas muito femininos, como os medos e fobias da mulher e a descoberta do corpo feminino. Por esse e por tantos outros motivos que Clarice é inspiradora, por ter escolhido ser escritora e ter lutado para continuar assim.

Margaret Atwood

Margaret a canadense que iniciou a carreira muito jovem os dezesseis, mas que após a adaptação para o canal de streaming Hulu de o “O Conto de Aia” se tornou a autora da moda na atualidade, e ainda bem.

Atwood coleciona prêmios desde cedo.  É uma prolifica autora tem poesias, novelas, ensaios e contos diversos. Teve mais de cinquenta publicações. O sucesso da distopia “O conto de Aia” se deve a genialidade de Margaret ao criticar a objetificação da mulher como mera procriadora. “O conto de Aia” não é uma distopia como as outras, ao questionar a falta de cuidado com o meio ambiente e une isso ao uma catástrofe que afeta a fertilidade feminina.





Mesmo em uma situação tão adversa como descrita por ela no livro, sua inspiração foi na realidade. Ela disse que mesmo tendo exagerado no que levaria as mulheres a serem tratadas como meras procriadoras em sua novela, que ainda há no mundo muitas mulheres ainda tem seus direitos cerceados e que em paises fortemente democráticos vem sofrendo ondas de intolerância. Cabe a nós estarmos atentos para que essa onda não se torne realidade. Por isso as denúncias de seu livro são fortes mais necessárias.

O sucesso de “Conto de Aia” na TV foi tão grande que logo teremos uma segunda temporada e que obras de Atwood,  de forte caráter feminista, tem sido largamente adaptados para a TV, como o muito bom “Alias Grace” do Netflix.

J. K. Rowling

J.K. Rowling não precisa de muitas apresentações no universo Nerd.  A mãe de Harry Potter é a mulher escritora mais bem sucedida de todos os tempos e muito merecido. Mas esse sucesso não veio de forma fácil, como nada nessa vida, especialmente para mulheres. A escritora britânica foi um prodígio, escreveu seu primeiro livro aos seis anos. Rowling perdeu a mãe quando ainda era jovem, teve depressão, viveu em Portugal, casou-se, teve um aborto espontâneo, engravidou de novo, separou-se e foi mãe solteira enquanto ainda escrevia Harry Potter – em que a ideia surge na longa espera do trem de Manchester para Londres.

Foi perseguida pelo ex-marido. Foi recusada em algumas editoras e seu manuscrito somente foi aceito por uma pequena editora. E o resto é história. A saga de sete livros se tornou um gigantesco sucesso editorial, posteriormente cinematográfico e por fim comercial, com parques temáticos na Inglaterra e nos Estados Unidos. Foi a primeira pessoa a se tornar bilionária por conta da venda de seus livros. É uma das mulheres mais ricas do mundo, mais rica até que a rainha da Inglaterra.





Ela casou-se novamente e teve mais dois filhos e o universo de Harry Potter só cresce. Teve lançamento do livro não escrito por ela, mas autorizado por ela, e adaptado para o teatro, “Harry Potter e A criança Amaldiçoada” e o lançamento do livros “Animais Fantásticos” e sua adaptação para o cinema e posteriores sequências.

Ler os livros de Rowling além de ser um prazer tornam as pessoas melhores. Como post que já escrevi, pesquisa científica comprovou que os leitores de Harry Potter são pessoas mais tolerantes e menos preconceituosas.  Mais um motivo porque J. K. é muito inspiradora na vida e nas obras.

Como disse muito mais outras escritoras mulheres inspiradoras existem, como Cora Coralina, Cecília Meireles, Raquel de Queiros, Ruth Rocha, Lygia Fagundes Telles, Carolina de Jesus, Agatha Christie, Harper Lee, Simone de Beauvoir, Charlotte e Emily Bronte, Isabel Allende, Sylvia Platt, Adelia Prado, Emily Dickson, Malala, Lya Luft, Florbela Espanca, entre várias.

Patricia Piquia

Patricia Piquia

Nerd, brasiliense, estabanada e professora de inglês. Amo música, livros, séries, filmes, arte, corridas, viagens e gordices.
Patricia Piquia
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