Comics foram criadas para entreter. Se no começo elas divertiam as crianças, hoje, todas as idades podem ler Histórias em Quadrinhos. Mas, além disso, é a Nona Arte, então vale a pena ser apreciada. Eu não sou uma daquelas pessoas que analisa profundamente uma história, para entender a parte psicológica ou os pormenores, mas tem uma coisa que eu sempre presto atenção: a época em que a HQ ou o personagem foram criados. A partir daí, podemos entender muito melhor a situação vivida ou o motivo de um personagem ser do jeito que é.

Vamos começar pelo princípio: lá na década de 30 as Hqs começaram a ser publicadas em maior número, nos EUA. Geralmente os personagens eram detetives, ou mesmo tinham algum poder, e lutavam contra o crime. Então, em Junho de 1938, a revista Action Comics trouxe ao mundo o Superman, e aí houve um boom: todos queriam falar sobre super-heróis. Muitos dos mais famosos nasceram entre 1939 e 1942: Batman, Lanterna Verde, Flash, Namor, Tocha Humana, Capitão América, Capitão Marvel, Aquaman e até mesmo o Robin surgiram nesse período.

Preste atenção nesses personagens: a maioria deles já foram vítimas de comentários como “as leis da física não permitiriam que isso acontecesse” ou “aiii… eles são perfeitos demais”. Como eu disse no meu post sobre críticas as HQS, esses conhecimentos eram fechados a comunidade científica, sendo que poucas pessoas entendiam como elas funcionavam. E quanto a perfeição, era como as pessoas queriam seus heróis na época: bons. Nessa época o Superman fez com que as pessoas quisessem ser como ele: poderoso, bom e leal. E Namor e Aquaman foram criados em um tempo em que as lendas de Atlantis eram muito vivas, onde pessoas queriam saber onde ela estava. Por isso esses personagens parecem estranhos para o mundo de hoje, mas pensem que naquele tempo, eles faziam muito sentido.

Na Segunda Guerra, muitos heróis lutaram contra a Alemanha. Capitão América, obviamente, foi um deles. Ele foi criado para isso, sendo que seu maior inimigo é o Caveira Vermelha, um nazistão, que era agente particular do Hitler. A família Marvel toda também. Foi inclusive o Capitão Nazista que aleijou o Capitão Marvel Jr. e matou o avô dele. Namor, que antes odiava a humanidade, e Tocha Humana, lutaram contra as forças do Eixo. E claro, Superman, que enfretou Hitler de verdade.

Nos anos 60, Stan Lee criou diversos personagens que fariam muito sucesso. Homem-Aranha, Quarteto Fantástico, Hulk, Homem de Ferro, X-men, entre outros. Mas diferente dos heróis criados anteriormente, esses tinham defeitos em suas personalidades (leia mais sobre isso). Em 1950, eles precisavam inovar e o mundo estava preparado para heróis que podiam errar. Ou quase, os X-men, que muitos consideram uma crítica ao preconceito (leia mais sobre isso), surgiram 1963, em um país onde a segregação racial era forte. Martin Luther King Jr. só faria seu discurso no próximo ano. Quando sugiram, os mutantes não fizeram muito sucesso e chegaram a ser cancelados. As pessoas não estavam preparadas para ouvir uma crítica sobre si mesmas. Só nos anos 70 que o grupo mais multicultural do Universo dos Heróis voltou ao mainstream, e hoje é um dos quadrinhos de maior sucesso. Observe que muitos desses heróis obtiveram seus poderes de coisas radioativas ou atômicas, pois esse assunto estava em voga na época. E surgiram muitos heróis cientistas. Além disso, o DNA havia sido descoberto na década anterior, mas diversas novidades sobre esse tema surgiram. Nos anos 60, os heróis ainda eram bastante bobinhos e suas histórias idem. Tudo era muito ingênuo.

Nos anos 70, os quadrinhos começaram a trazer de volta seu lado mais adulto, com histórias mais sombrias. Mas foi nos anos 80 que grandes arcos, bem maduros, foram lançados. Watchmen faz alusão a situação da época, a Guerra Fria. V de Vingança e Cavaleiro das Trevas possuíam critícas políticas. Grandes escritores apareceram, e as histórias passaram a ser obras de arte. Os anos 90 são extremamente sombrios, cheio de anti-heróis e histórias pesadas. Todos os personagens badass que você conseguir pensar provavelmente nasceram nessa época. Se você olhar cada uma das décadas, verá como as HQ’s tinham características em comum e como os fatos históricos e sociais tinham influência sobre o que era escrito.

Outra coisa legal para ver a passagem de tempo nas HQ’s é o comportamento dos personagens. Se nos anos 50, as moças eram comportadas e meigas, nos anos 90 todas eram fortes e decididas, pois eram as mulheres da época (gente, era a década do “4 non blondes”). Mesmo a aparência dos personagens muda. Nos anos 80, as pernas das mulheres nasciam no umbigo, pois mulheres altas, de pernas longas e cabelos gigantes faziam sucesso. Hoje, elas são bem mais magras. A Tempestade usou moicano nos anos 80! E o Superman já teve mullet.

Toda vez que conhecer um personagem novo tente pensar sobre isso. Quando ele nasceu? Talvez isso explique o porque dele ser assim. Hoje em dia essas coisas podem parecer idiotas, mas na época da criação, elas poderíam fazer sentido. Como comparar o Batman, que nasceu em 1939 e tem como sua motivação e tristeza a morte dos seus pais, com personagens criados nos anos 90 ou 2000 que foram estuprados pelos pais? Não tem como. Apenas a época em que foram criados pode dar uma luz. Não estou dizendo que perder os pais na sua frente não é ruim, nem que talvez o psicológico do personagem o tenha deixado assim, só quero dizer que depois de uma época, as histórias dos heróis se tornaram mais obscuras porque o mundo deixou que elas fossem publicadas. Ou você acha que em 1940 iam deixar um personagem que foi abusado pelo pai ser publicado?

E claro, as histórias se tornam muito mais interessantes quando o contexto histórico é avaliado. Elas, no fundo, tem muita ligação com a situação em que o mundo se encontra na época. E a partir de agora, toda vez que alguém te disser “o Superman é tosco”, você tem como rebater.