Catalogado como Política

Dos absurdos da educação no Brasil

Publicado em 30 junho 2009 por Leonardo R.

diploma

Já é certo e sabido que infelizmente, no nosso país a educação pública é terrível. Não entro no mérito de quem é a culpa, pois os pais hoje em dia também relegam aos professores que eduquem seus filhos em áreas que eles mesmos deveriam (aquela parte que os nossos avós chamavam de “educação de berço”). Então, não há um único culpado. Todos enxergam o problema, que fica pulando como ‘batata quente’ de um lado para outro, sem ser resolvido.

Em São Paulo, o problema começa logo nas creches. É só procurar pelo UOL, por exemplo, que você encontra notícias de creches que a prefeitura paga como terceirizadas e que funcionam, por exemplo em cima de uma loja de botijões de gás. Sem contar na falta de respeito dos próprios alunos com os professores.

Mas o meu foco hoje é o novo ENEM. Desde que ele foi aceito por universidades Federais e públicas do país, vem ocorrendo debates e mais debates sobre as mudanças na prova. A mais nova, e que muito me indigna, é a seguinte: das 200 questões propostas, de múltipla escolha, eles criaram um sistema que consegue dizer se você chutou ou não. E se você chutou (ou melhor, se eles dizem que você chutou), e acertou, sua pontuação será menor.

Sim, leitora/leitor, te dou uma pausa pra digerir isso.

Estão fazendo alguns estudantes do 1o e 2o anos do Ensino Médio – pois o 3o ano fará a prova esse ano, e eles não querem que eles saibam alguma questão que por ventura apareça na prova oficial – e universitários no primeiro ano como cobaias, e baseado na estatística das respostas dessas cobaias, ‘calibrando’ um modo de acusar que você chutou, o TRI (Teoria de Resposta ao Item). Segundo a lógica deles, pessoas que acertam os exercícios difíceis não erram os fáceis.

Simples assim.

Seria simples se fôssemos máquinas. Quantas vezes você não errou uma questão de ‘bobeira’ na prova, por ter lido com pressa ou por puro nervosismo? Quer dizer que você não dominava a matéria? Ou, no caso de provas longas, com conteúdo extenso: se eu acertar a ‘difícil’ por exemplo de genética e errar a ‘fácil’ de biologia celular quer dizer que eu chutei, ao invés de talvez (talvez!!) eu ser melhor em genética do que biologia celular?

A princípio o ENEM foi criado para medir o conteúdo que estava sendo ensinado no Ensino Médio. Depois, começou a valer um percentual na Fuvest (se você veio de escola pública) e modo de seleção para você tentar uma bolsa pelo Prouni (Programa Universidade Para Todos). E eles vão conseguir medir mesmo o que está sendo ensinado na rede pública: nada. O Prouni deixará de ser ‘para todos’, afinal, quem vier de escola pública não conseguirá muitos pontos no novo ENEM sem um cursinho. E cursinhos são caros. Se você já não tem nem grana pra pagar o cursinho, e está tentando o Prouni é porque, tá na cara né, você não tem como pagar a faculdade. Agora você vai tentar o ENEM porque ele dá acesso a algumas faculdades públicas.

Ou seja. Nem bolsa, nem faculdade pública. A quem estamos tentando enganar? Não seria mais lógico consertar o ensino público primeiro?

Nós continuamos a cultivar a imagem que o jovem já tem – que estudar é difícil, que faculdade é só pra quem pode ou é ‘nerd’. Pra que ir pra escola se o que ele aprende lá não vai fazer com que ele consiga entrar numa faculdade?

Compartilhe:
  • Print
  • Digg
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Google Bookmarks
  • Diigo
  • email
  • FriendFeed
  • Identi.ca
  • LinkedIn
  • MySpace
  • NewsVine
  • Rec6
  • Reddit
  • StumbleUpon
  • Technorati
  • Tumblr
  • Twitter

10 Comments For This Post

  1. Marcela Says:

    Poxa… isso é uma tremenda sacanagem!
    Eu não sabia disso…
    O ensino no país é sempre ‘solucionado’ por ideia mirabolantes e escrotas!
    “Não me convidaram pra essa festa pop”

    Post muito bom!

    Bjs

  2. Natane Says:

    Eu até gostei do Enem valer mais na prova do vestibular, porque eu (como vestibulanda) posso escolher cinco faculdades e cinco cursos, ou seja, tenho mais chances. E além disso, a decoreba vai sendo excluída e as pessoas tendem a usar mais o raciocínio.
    Mas, por outro lado, eles decidiram e mudaram isso “em cima da hora”, acho que eles tinham que prevenir os estudantes primeiro, esse sistema já vai começar nesse ano (ou no ano quem vem?).
    Ao invés de mudarem o sistema de vestibular ou de criarem cotas para negros ou pobres, eles (o governo) deviam melhorar a educação (educação não só para a elite, mas para os necessitados também!).

  3. Kat Says:

    Natane,
    Eu concordo com você que vale a pena o Enem ser usado como vestibular, é menos provas diferentes pra fazer e taxas pra pagar.
    Sim, ele vale a partir deste ano, em outubro.
    O problema é que a decoreba é por vezes o único meio encontrado por estudantes nesse sistema de ensino deficiente, entende? Se você não conseguiu absorver e entender o conteúdo, e sabe que ele é necessário numa prova, você desiste ou ‘decora’?
    No caso dessa nova prova, não é nem pela questão de usar o raciocínio, é que por vezes você pode realmente ter um conhecimento melhor de uma questão difícil em relação à fácil e ser julgado como ‘chute’, te prejudicando na nota. Até provar que fucinho de porco não é tomada, vai levar um tempo.

    Boa sorte no vestibular (=

  4. Thais Says:

    Olha, eu acho assim, já que pra entrar na USP é só vc ser rico mesmo (pq quem estuda em escola pública não entra MESMO), então pq se preocupar tanto com o Enem? Mas é uma sacanagem sim, eu concordo com vc, e ainda acho que não existe um jeito deles fazerem isso de verdade… enfim…

  5. Kat Says:

    Thais,
    A minha preocupação com o ENEM é porque a pontuação nele serve para conseguir bolsas em faculdades pagas (Prouni), seja nas mais conceituadas (PUC, Mackenzie) como as mais baratas. Se já no colegial público você sabe que não vai entrar numa USP, e também sem faculdade não vai ter um salário pra pagar qualquer faculdade, com esse Enem muitas bolsas do Prouni serão prejudicadas.

  6. Pongo Says:

    O complicado das avaliações é que toda e qualquer avaliação é arbitrária e embasada em um a priori que não é acessível ao aluno e, quando analisado, não significa nada além de arbitrariedade.
    Essa “teoria da resposta ao item” é só mais uma forma de arbitrariedade. Tão somente; o que precisa mudar não é a avaliação, pois esta sempre será excludente, mas a forma de ingresso.

  7. Vanini Says:

    Surreal isso! Absurdo!
    Com o discurso de ser algo mais “amplo” eles restringem ainda mais…
    Triste.
    Beijos :*

  8. Bruno Pedrassani Says:

    Pegadinha do Malandro isso né? Não é possível que cidadão ache que pode decidir quando você chutou na prova ou não. Não é nem por não sermos máquinas, mas teríamos que ser todos IGUAIS, o que é uma coisa ridícula de se afirmar. PQP mesmo.

  9. cristiano Says:

    Quanto ao anti chutômetro, me abstenho de comentar. Nunca ouvi falar de tal dispositivo, e não vejo possibilidade de implanatação de algo assim, pelo que li a respeito do programa, no site do MEC.
    Quanto ao expediente das questões objetivas em provas públicas, realmente, já estava mais do que na hora de ser extinto. A universalidade do conhecimento é que será avaliada no novo Enem, a aplicação prática do conhecimento adquirido.
    No quesito “cusrinhos” e a possibilidade de elitização, pergunto-te: O que não é elitista num país onde poucas famílias detém o controle quase total da informação, e junto da informação, estabelecem meios de “formação”. Pensamos o que o Jornal Nacional estabelece e permite.
    O brasileiro não pensa mais, espera pela análise dos especialistas, e eles nunca vão dizer que, para acabar com o elitismo, e termos uma educação realmente universal, temos de rever alguns dispositivos criado pela mesma ditadura que criou as condições para o surgimento da Rede Globo: A volta do caráter classificatório do vestibular, o retorno da sociologia e da filosofia aos curríulos fundamental e médio, o incentivo à formação continuada dos professores, além é claro de seus salários.
    Adoraria continuar, fazer uma boa análise da situação, mas me alonguei demais, se achar necessário algun esclarecimento, podes contatar-me por e-mail, ou através de meu blog.
    Abraços.

  10. Silva Says:

    Simplesmente comentários de “loiras”, rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrr ai,ai,ai que coisa louca não é mesmo?

    que 2010 seja um ano maravilhos pra todos nós falou galera. tchauuuuuuuuuuu…

2 Trackbacks For This Post

  1. garotas nerds. » Blog Archive » Crítica à proposta de mudanças curriculares aprovadas pelo CNE. Says:

    [...] escrever sobre algo que me deixou completamente sem reação. Havia lido o artigo da Kat – Dos absurdos da educação no Brasil e ficado a refletir sobre o tema.  Já sabia das mudanças através de meus alunos, que comentaram [...]

  2. garotas nerds. » Blog Archive » Dos absurdos da educação no Brasil 2 Says:

    [...] já havia comentado aqui um dos aspectos da educação brasileira, ou melhor, uma das formas criadas pelo governo para [...]

Leave a Reply

FOLLOW US




NAVEGUE


ESTATÍSTICAS